O dia começa cedo na pequena propriedade localizada em Jaru (RO), onde o cheiro da terra molhada se mistura ao ardor leve das pimentas recém-colhidas. Entre fileiras verdes cultivadas sem agrotóxicos, Keli G. Baltazar, 42 anos, conduz a rotina com a precisão de quem reconstruiu a própria vida a partir do zero.
Há poucos anos, a realidade era outra. Ex-funcionária pública, ela enfrentou a violência doméstica e o diagnóstico de esquizofrenia do ex-marido no ambiente familiar que foi se tornando insustentável. A zona rural de Jaru, cidade rodeada pela exuberância da natureza rondoniense, virou refúgio e ponto de virada. Foi ali, entre o cultivo e a cozinha, que Keli começou a desenhar um novo caminho.
“Quando o medo e a insegurança apareciam, a cozinha era o meu lugar. Quando tudo parecia desmoronar, encontrei na terra e nos sabores uma forma de continuar.”— Keli G. Baltazar
O que começou como experimentos caseiros logo ganhou forma de negócio. Assim nasceu a Horta Moriá, marca que carrega no nome uma referência à fé que a sustentou nos momentos mais duros. Os primeiros produtos vinham carregados de memória afetiva. O molho de coco abriu caminho para combinações mais ousadas, como o de maracujá, que conquistou consumidores pela originalidade e hoje circula em feiras, redes locais e encomendas diretas.
Toda a produção segue um princípio claro: cultivo 100% livre de agrotóxicos, adubação orgânica e reaproveitamento de embalagens. É sustentabilidade integral. “A pimenta representa meu recomeço aliado ao amor de Deus”, resume Keli, que agora sonha em ver a pequena fábrica crescer e alcançar novos mercados.
O que era tábua de salvação virou propósito. A Horta Moriá é a prova de que a agricultura familiar, quando aliada à sustentabilidade e à determinação de quem não desistiu, tem força para gerar renda, autonomia e novas perspectivas, especialmente para mulheres que, como Keli, decidiram não aceitar o sofrimento como ponto final.
A trajetória de Keli reflete a força silenciosa da agricultura familiar no Brasil, onde o cultivo de pimentas do gênero Capsicum, entre elas a dedo-de-moça, a biquinho e a malagueta, consolida-se como uma atividade de alto valor agregado e forte apelo social.
Embora os registros oficiais do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontem uma produção modesta de aproximadamente 28 mil toneladas no país (com Rondônia respondendo por 264 toneladas), pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estimam que o volume real colhido anualmente seja muito maior, oscilando entre 75 mil e 280 mil toneladas em uma área de 13 mil hectares. Essa enorme discrepância ocorre porque a atividade é altamente pulverizada, estando presente em mais de 80% dos estabelecimentos da agricultura familiar, o que gera uma intensa comercialização informal e regional que escapa das estatísticas tradicionais.
Sem uma estimativa exata da produção nacional devido a essa descentralização, o mercado de pimentas hortícolas demonstra sua robustez financeira ao movimentar anualmente entre US$ 80 milhões e US$ 100 milhões no mercado nacional e de exportação, sendo R$ 3 milhões desse total representados exclusivamente pelo comércio de sementes.
Apesar de ser considerado um mercado menor, o setor está em franca expansão. A pimenta vermelha já é o terceiro tempero hortaliça mais consumido no país, atrás apenas de alho e cebola. Sua versatilidade impulsiona a agroindústria, transformando-se em geleias, embutidos e, claro, molhos, com aplicação nas indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética.
Há algumas semanas, a cliente Gigliane Agustini, conhecida como "Gi", de Minas Novas, uma grande comunidade rural localizada no território da Reserva Extrativista (Resex) Jaci-Paraná e do Projeto Fundiário Jorge Teixeira, em uma área situada entre os municípios de Porto Velho, Buritis e Nova Mamoré, conheceu os produtos e comprou frascos de vários sabores. Como gosta muito de pimenta, decidiu experimentar após saber que a produção era natural e se surpreendeu com o resultado.
"Gente, pra quem gosta de pimenta, isso é uma maravilha. Uma melhor que a outra. Mas quando me dava vontade de comer, eu comprava aquelas pimentas de mercado e passava mal... Olha, tem coisa melhor do que comer o que a gente gosta e não passar mal? Isso é vida."— Gigliane "Gi" Agustini, cliente
Hoje, Gi é cliente fidelizada e recomenda o product. "Pra todo mundo que fala comigo eu digo: 'Experimenta essa pimenta porque ela é boa mesmo'", acrescentou.
Por fim, Semaias de Assis, agente de portaria e vigilância do Poder Legislativo de Jaru e mais novo cliente, foi incisivo: “Eu comprei uma pimenta com a Keli, maravilhosa, hein? Vou até anotar o nome dela e vou comprar de novo. Ela é muito boa. Bem que ela falou que ia ser bem gostosa. Eu falei: ‘Ah, tá. Vou levar’. Eu comprei só uma pequena de R$ 10, mas vou comprar mais depois dela”.
A trajetória de Keli em direção ao orgânico encontra respaldo na ciência. Para o biólogo e doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, Marcelo Lucian Ferronato, a agricultura sustentável é estratégica para a economia rondoniense. “Representa o elo entre produção e conservação — um desafio que o estado precisa enfrentar com inteligência”, afirma.
Segundo ele, Rondônia, um dos gigantes agropecuários da Amazônia, precisa de “novas formas de produzir” para compensar os passivos ambientais gerados pelo avanço da fronteira agrícola.
Questionado sobre a viabilidade econômica para o pequeno produtor, Ferronato é categórico: “Sim, em tese deve ser, desde que acompanhada de políticas públicas, assistência técnica e acesso a mercados diferenciados”. Ele enfatiza que a sustentabilidade, quando bem apoiada, é mais rentável que o modelo convencional.
“Reduz custos com insumos, melhora a fertilidade do solo e aumenta a resiliência frente às mudanças climáticas. O retorno econômico não vem apenas do lucro imediato, mas da estabilidade ecológica e social que sustenta o sistema produtivo a longo prazo”, acrescentou.
Assim, entre as plantações orgânicas de Keli, a pimenta não é apenas um molho; é a prova viva de que a dor pode ser transformada em força e que a sustentabilidade, aliada à garra, é o caminho mais sólido para o futuro.
O mapa do empreendedorismo brasileiro sofreu uma alteração profunda na última década, de acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O avanço das mulheres no comando de empresas não é apenas numérico, com um salto de 27% no período, mas qualitativo. Hoje, o país soma mais de 10 milhões de empreendedoras que, além de ocuparem novos nichos, apresentam nível de escolaridade significativamente superior ao dos homens.
Para Aniele Tesser, gerente do Sebrae em Ariquemes, o movimento reflete uma transição de mentalidade. Se antes a abertura de um negócio era a saída imediata para o desemprego, hoje a busca é por espaço e realização. "Cada vez mais mulheres estão empreendendo por oportunidade, buscando autonomia financeira, realização profissional e a exploração de novos nichos de mercado", pontua a gestora.
Os indicadores de formação acadêmica sustentam essa nova realidade. Enquanto 21,4% dos homens que empreendem possuem ensino superior incompleto ou mais, entre as mulheres esse índice sobe para 34,5%. No total, 68% delas concluíram o ensino médio ou a graduação. Esse preparo reflete diretamente na saúde financeira das empresas, garantindo organização documental rigorosa e planejamento estratégico de longo prazo.
"A qualificação amplia a capacidade de identificar oportunidades, fortalece a gestão e aumenta a confiança para empreender."— Aniele Tesser
Na prática, essa maturidade administrativa deveria facilitar o caminho até o capital de giro, mas o mercado de crédito ainda impõe barreiras desproporcionais. Mesmo com índices de inadimplência menores que os masculinos, as mulheres enfrentam critérios de risco severos e recebem ofertas de empréstimos com valores reduzidos.
O protagonismo feminino também esbarra na sobrecarga doméstica. Embora representem mais da metade da população em idade ativa, elas ocupam 34,3% das posições de donas de negócios. A disparidade é alimentada por uma jornada que não termina no fechamento do caixa. Segundo o Sebrae, as empreendedoras dedicam, em média, 10,5 horas semanais a mais do que os homens aos cuidados com a casa e a família.
Para mitigar esses gargalos, iniciativas como o Sebrae Delas e o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios focam no desenvolvimento de competências e no reconhecimento de trajetórias de sucesso. O objetivo é consolidar a confiança dessas líderes na tomada de decisão e ampliar redes de influência. "O Sebrae atua fortemente na capacitação financeira e no fortalecimento da gestão, contribuindo para promover o crescimento sustentável das empresas lideradas por mulheres", conclui Tesser.
A trajetória da Horta Moriá ilustra a força da agricultura familiar quando aliada ao suporte estratégico. A fundadora do negócio relata que a parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Rondônia (Sebrae/RO) foi fundamental para consolidar a iniciativa, ajudando a transformar a produção de pimentas e conservas em uma empresa estruturada e lucrativa.
O impacto da capacitação e do incentivo recebidos ao longo dos anos redefiniu a visão de Keli sobre sua própria atuação no campo. Segundo a produtora, o apoio da instituição foi o elemento central para essa mudança de perspectiva:
"O Sebrae/RO trouxe essa ideia de que nós, mulheres rurais, também podemos ser uma empreendedora e transformar aquilo que nós produzimos em um negócio lucrativo, que gere renda, que auxilia a família, mas também nos traga o prazer de trabalhar naquilo que a gente gosta."— Keli G. Baltazar
Além do acompanhamento técnico em áreas como marketing, vendas e gestão tributária, a empreendedora rural aponta o curso online "Mulheres em Foco" como o grande marco de sua jornada.
“A Horta Mulher é algo que gera renda, é algo que estava começando, nós ainda estamos no caminho, mas durante algum tempo eu fiz acompanhamento com o Sebrae. E esse acompanhamento tem, a cada dia, valorizado o meu produto e me motivado a ser uma empreendedora que cuida do seu negócio com amor e com muita dedicação”.